quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Resenha - Sagas Vol. 2 Estranho Oeste


A trilogia Sagas chega ao seu segundo volume com uma inusitada mistura – até então, à época do seu lançamento, março de 2011: o Faroeste e o Fantástico, mistura esta que recebe o nome de “weird west”. Como Thomaz Albornoz, o prefaciador deste volume, bem perguntou: “Por que será que a mistura do horror com o western não ocorreu antes?” Pois é. Por que não? Porque, até então, ninguém tinha sido tão ousado.

Neste volume 2 o formatinho é o mesmo: compacto e elegante. São 5 noveletas distribuídas em 141 páginas, com participações de Alícia Azevedo (sim! Uma moça escrevendo sobre horror e faroeste!), Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira. A capa, tipo comics, é do ótimo Fred Macêdo e a publicação é da Argonautas Editora.

Meu Achismo:

Bisão do Sol Poente
Duda Falcão

Não é a toa que a capa é referente a este conto que inaugura o livro. Bisão do Sol Poente é um conto fabuloso em que se mistura o horror sobrenatural, xamanismo, a sabedoria ancestral incorporada no nativo sioux Sunset Bison, e o delicioso personagem anti-herói Kane Blackmoon, um caça-recompensas mestiço e imperfeito, que comete erros infames e se arrepende disso. Eu já comentei que adoro personagens errados, não foi? Pois parece que Duda Falcão também, para o meu deleite XD~

Tudo começa com Kane na caça do bando de pistoleiros de Hernandes Calderón. Caçar bandidos era o seu ganha-pão e também diversão. Mas os fatos tomam outro rumo quando Kane se depara com um saloon em que uma bizarra carnificina ocorrera. E a realidade ficou ainda pior ao constatar que a chacina não se restringia ao saloon: todas as casas do pequeno povoado estavam com seus habitantes dilacerados de uma forma tal que se descartava a hipótese de que algo assim tenha sido cometido por um humano ou animal.

O índio Sunset Bison vai no encalço de Kane, pois caçava o mesmo que ele, embora o caça-recompensas ainda não soubesse disso. Num momento de descanso, as origens de Kane são reveladas e algo mais além disso, até a sua forma transcedente de corvo, seu animal sagrado, o Totem.

E Kane “Lua Negra” é um caçador de espíritos malévolos!

Hernandes Calderón havia se tornado um “hospedeiro” quando invadiu o território sagrado de Bison, libertando a aberração espiritual que estava aprisionada num pote de cerâmica adornado com inscrições magísticas. De simples caçada a bandidos sanguinários, a perseguição se tornou uma verdadeira caçada a um monstro sobrenatural pior que o diabo!

Dos 3 volume de Sagas, este é o melhor conto de Duda Falcão. É possível, até, que ele tenha encontrado aqui, na weird west, sua verdadeira praia :)

Aproveite o Dia
Christian David


Jeremiah Duncan é um médium, mas como este conto deve ser ambientado numa época anterior à decodificação kardequiana, o rapaz não deve saber disso. Pois que ele é um médium e desde pequeno recebe o apelido de “O Profeta”, não apenas por uma alusão de seu nome ao do profeta bíblico, mas também porque ele sempre foi acometido por presságios e vozes que somente ele ouvia.

Mas sua maior aventura sobrenatural, certamente, ocorreu no estranho saloon de Mama Belle, em que adentrou cansado e faminto após dois dias ininterruptos de cavalgada pelo calor do oeste.

O saloon, apesar de perdido no meio do nada, parecia igual a todos os outros, que servia refeição e repouso aos viajantes exaustos, repleto de mesas redondas onde se reuniam homens para partidas de pôquer e garçonetes mau-humoradas. Parecia...

Aqui, o conto mistura magia negra vudu; o mesmo dia que se repete indefinidamente; e um adorável herói imperfeitamente normal, que é traumatizado com gritos e que luta muito para não sucumbir ao medo e à insanidade (que jamais nega). Dotado também de clarividência, Jeremiah enxerga duas realidades distintas, uma em cada olho. E Mama Belle? Ela, um arremedo de feiticeira vudu, que tem o feitiço, literalmente, voltado contra ela. Uma amaldiçoada pela própria magia conjurada por ela mesma para evitar a morte, mas que acabou amaldiçoando todo o saloon e quem dentro dele estava – ou tinha a desgraça de adentrá-lo e comer da comida enfeitiçada do lugar. Ironicamente, ao tentar evitar a morte, ela se prendeu a um destino muito pior.

A magia de Mama Belle, que a prendeu à vida, também a prendeu num único dia que nunca passa. Jeremiah, o “pistoleiro profeta”, é a última maior esperança de todos para os libertar da maldição.

E o rapaz aceita de bom grado a missão de salvador? Não, óbvio. Apenas aceita para se ver ele mesmo livre da armadilha em que caiu. O final foi resolvido de forma prática, com O Profeta usando-se de seu outro grande dom – e bem mais útil!

É um ótimo conto, com simplicidade e bom desenvolvimento.

“Aproveite o dia!”


Alícia Azevedo


Os conhecimentos de Filosofia da autora se fizeram muito presentes nesta noveleta em que a redenção foi buscada em sentido contrário. Fé, convicção, crença em Deus, no Céu e Inferno, na Vida e Morte, são a base desta história.

O progresso avançava ao que antes era o Oeste selvagem, através dos brilhantes trilhos da ferrovia. Nada poderia deter o progresso, que estava acima de tudo, inclusive de Deus: nem o bom senso, nem uma inocente missão religiosa repleta de crianças órfãs cuidadas por uma jovem freira serviram de freio para a crueldade dos homens ambiciosos.

As crianças foram massacradas e a freirinha violentada até a beira da morte. Em meio a tanta desgraça e sangue, a Fé da jovem oscila, abrindo brecha para a atuação da contraparte de Deus, que lhe oferece Vida e Força para que ela se vingue dos homens que praticaram tamanha atrocidade.

Assumindo o nome de Beatrix, a jovem entrega a sua Fé e lealdade àquele que a devolve à vida, e parte para Albuquerque, ganhando almas para o seu novo Senhor através da corrupção destas, até encontrar seu destino final, onde se instala sob a roupagem de uma jovem viúva rica.

Sob esse disfarce, Beatrix semeou a discórdia e a dor entre as boas pessoas e famílias da cidade, ganhando cada vez mais almas, mas isso a satisfaz por pouco tempo. Logo ela apelou para chacinas e tornou-se uma incendiária. Neste ponto da história, o conto sofreu um desânimo em sua narrativa, talvez para demonstrar o espírito entediado da protagonista, pois é o tédio que nos transmite.

O desfecho, esperado, foi a concretização da vingança, consolidado a Fé da personagem e provando a sua lealdade através da abnegação. Beatrix encontrou sua redenção às avessas. E “Ele” não a abandonou como o Outro.

Justiça... Vivo ou Morto
M. D. Amado


Como era de se esperar, portanto não foi decepcionante, o estranho e esquisito preencheram esta noveleta de Marcelo Amado que, ao que me parece, serviu de cenário para a antologia que ele, então, viria a lançar mais tarde através da sua recém criada Editora Estronho, Cursed City.

Cole Monco é um pistoleiro de aluguel – e um poderoso médium, mas isso ele não sabe. Quando numa preguiçosa tarde de sábado é acordado pelos tiros de uma velha pistola, disparados por Josh Mackenzie, um garoto de 17 anos que buscava vingar a chacina de sua família, Monco resolve “adotar” o rapaz e a causa dele, motivado pela empatia, pois seu sangrento passado tinha a mesma história de Josh.

Apesar de irascível, o garoto acaba aceitando ajuda, sabendo que não seria capaz de concretizar sua vingança contra os índios choctaw que destruíram a sua família.

E a batalha se dá no ponto de partida onde tudo começou: no rancho Mackenzie. Mas, por mais que Cole e o xerife Pat Stevenson, que se juntou à caçada, atirassem nos choctaws que cercavam o rancho, nada acontecia. Aterrados, começam a perceber de que eles não lutavam, exatamente, contra pessoas humanas. E o mistério acerca de Josh começa a se desenovelar, tendo uma reviravolta do meio para o fim da história.

Atos violentos que não saem impunes nem depois da morte. Maldição indígena e batalhas travadas no plano astral. “Justiça... vivo ou morto” é  o conto mais denso do livro, com um desfecho nada convencional. Muito bom ^^

The Gun, the Evil and the Death
Wilson Vieira


Último conto de Sagas 2.

Wilson Vieira é um roteirista de histórias em quadrinhos, tendo mais de 30 anos de experiência nessa área. Mas a transição entre roteiro e texto literário quase nunca é harmoniosa e o texto tende a não fluir com facilidade.

Minucioso demais, perdeu-se espaço e tempo com descrições desnecessárias, como marcas, etiquetas e datas de fabricação dos objetos pessoais do protagonista, o bandido Tom Willian Ketchum. Se por um lado tais descrições podem enriquecer o texto, por outro a sua utilização a espaços curtos torna a leitura chata.

Felizmente, o enredo salva e faz valer o sacrifício de ver propagandas, quando Wilson engata na escrita e nos conta a mais “weird” das noveletas do livro.

Ketchum é um pistoleiro sádico e cruel. Diferente dos outros personagens da antologia, ele é mesmo um vilão malzão. A sua sordidez chega ao ponto de provocar brigas para justificar sua matança de pessoas honestas. E o preço que pagaria por sua última covardia seria muito, mas muito alto!

Ao adentrar numa nova cidade, que parecia abandonada, deserta sob o aguaceiro da chuva, Ketchum se dirige ao único local que parecia vivo, a cantina Las Cruces, em busca de calor seco e algo para comer e beber, mas mal sabia ele que ali seria a sua paga por todos os assassinatos que cometeu, sendo introduzido como réu num julgamento absolutamente nada convencional e completamente bizarro. E a sua sentença, decretada pelos 12 homens que ele matou, foi a de um pesadelo bastante real ao qual ele deveria sofrer e repetir o sofrimento pelo número de vezes em que matou.

Achismo Final:

Sagas 2, Estranho Oeste, é o melhor volume da série, composta, até então, de 3 livros. Não apenas pela atuação de seus destros autores, que conduziram suas histórias da melhor forma possível, mas também pelo tema abordado.

Talvez por falta de mais dados de referência histórica disponíveis sobre o Velho Oeste, os cenários foram repetitivos, como se não houvesse nada além de deserto, ranchos e saloons. Pode ser que não haja mesmo, pois são esses mesmos cenários que estão presentes nos filmes de western. Aliás, aprecio bastante tais filmes, tanto que “Era uma vez no Oeste”, de Sérgio Leone (1968), com Charlie Bronson, é um dos meus favoritos XD~

E esse tema misto, o faroeste permeado ao sobrenatural, deveria ser repetido mais algumas vezes ;)

Pat Kovacs

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